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sábado, 9 de junho de 2012 Ao Vivo | 19:56

Lembranças de bate-papos com Ivan Lessa

Bruno Garcez , BBC Brasil em Londres

Ivan Lessa morre aos 77 - Divulgação

Ivan Lessa era um prosador nato, bom de lábia, farto em tiradas, dotado de um humor ferino, cáustico. A mesa de almoço com ele se transformava em um palco, em que ele era o protagonista. Os temas iam desde episódios de Os Simpsons até canções de Billy Eckstine ou filmes de Michael Powell.

Ivan Lessa morre aos 77 anos

Além de contar “causos”, Ivan nos divertia tecendo loas aos artistas que admirava e descendo lenha nos que desprezava. Não bastasse isso, gostava de fazer vozes e imitar personagens reais ou imaginários. Dávamos risadas, às vezes, gargalhadas.

Todos conheciam os textos do Ivan ou as crônicas que ele lia no rádio, mas boa parte de nossos ouvintes e leitores não conhecia o personagem Ivan Lessa como nós, da BBC Brasil, conhecíamos.

Sua irreverência e ironia já estavam estampadas nos textos, mas nada melhor do que dar uma amostra do verdadeiro Ivan para os ouvintes.

Sendo assim, pensaram meus editores, por que a gente não grava um bate-papo com o Ivan e transforma essas conversas com ele em uma atração semanal? A ideia era boa e de simples execução.

Leia a última coluna de Ivan Lessa: “Orlando Porto”

Foi assim que, em 2003, coube a mim a sorte de ter sido o primeiro a participar desses bate-papos com o Ivan. As conversas podiam chegar até a durar meia hora, mas a versão que chegava às ondas do rádio era bem mais enxuta – de, no máximo, uns cinco minutos. Editar podia ser uma tarefa árdua.

Ivan gostava de falar e, no fluxo de consciência que ele produzia, nem sempre era fácil achar pontos de cortes. Às vezes, dava dó de ter de deixar de fora parte do deboche, das diatribes e das frases certeiras dele. Mas preservávamos o essencial.

Os temas, assim como nos almoços protagonizados por ele, eram os mais variados. Falávamos sobre os já mencionados Simpsons, de quem Ivan era um fã ardoroso, a célebre entrevista de Michael Jackson com Martin Bashir, a briga entre os escritores Martin Amis e Ian McEwan.

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Não nos limitávamos a conversar. Os bate-papos eram entremeados por músicas que Ivan gostava ou sobre as quais falaria naquela edição do programa. Sinatra não poderia faltar e compareceu em mais de uma ocasião. Mas também estiveram presentes o já citado Billy Eckstine, a quem Ivan se orgulhava de ter entrevistado, e muitos outros.

Era como um papo de botequim, mas sem cerveja ou tira-gostos. Mas não faltavam risadas. O tom improvisado era tão grande que, em princípio, nem sabíamos que nome dar a essa atração. Mas, fiéis ao caráter espontâneo da coisa, optamos por um mero Papo com Ivan, que já dizia tudo.

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Depois de mim, vários outros produtores da BBC Brasil passaram pela funcão de interlocutor do Ivan. Todos nós compartilhamos as risadas e conhecimentos que adquirimos graças a esse convívio.

Ivan tinha suas idiossincrasias e torcia o nariz para muitas coisas, em particular para a música mais recente. Eu me recordo bem da alegria de um colega Eric Camara após ter apresentado a Ivan um disco de Elvis Costello em que o cantor e compositor britânico interpreta standards da música americana.

Marotamante, meu colega não revelou quem era e muito menos que se tratava de um artista atual. Mas relatou que Ivan curtiu o que ouviu. Depois, fiel ao estilo, quando questionamos Ivan sobre Elvis Costello, ele desconversou e agiu como se não lembrasse do incidente. Era a birra característica do Ivan – ele não gostava de dar o braço a torcer.

Ivan nos apresentava tantas coisas boas que a gente se sentia feliz quando conseguia retribuir de alguma forma. Por isso, entendo bem a alegria de meu colega, pois tive eu próprio experiência semelhante, quando presenteei Ivan com uma cópia de Macho Não Ganha Flor, de Dalton Trevisan – o recluso escritor curitibano, de quem Ivan era amigo e com quem chegou a trocar cartas, na época em que ele, Ivan, editava o Pasquim.

Ele enviou um email de agradecimento carinhoso e expressou a alegria de estar lendo um novo Dalton após tantos anos.

Agora, enquanto escrevo este texto, eu me recordo de outro cantor que vim a conhecer melhor graças a Ivan, Johnny Hartman. Por isso, escolhi a bela voz do crooner dos anos 50 e 60 para ajudar na inspiração. Acho que Ivan aprovaria a escolha.

É pena que o bate-papo que se seguiria a estas canções não é mais possível. Mas fica a recordação daquelas animadas conversas semanais.

Veja a lista de colunas da BBC Brasil escritas por Ivan Lessa e publicadas no iG



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Ao Vivo | 19:47

Cronista apaixonado pelo cinema

Thomas Pappon, BBC Brasil

Ivan Lessa morre aos 77 - Fernando Cavalcanti / BBC Brasil

Ivan Lessa certamente será lembrado como a principal cabeça pensante dos tempos áureos do Pasquim e pelo seu texto refinado e ácido – muitas vezes aberto a interpretações distintas, mas que rendeu-lhe a fama de um dos grandes escritores brasileiros.

Oscar Pilagallo: Em Londres com Ivan Lessa

Ele reverenciava as regras da arte de escrever, que dominava. Entregava sua coluna religiosamente um dia antes da publicação prevista; erros de gramática e regência ou colocações sem sentido, não os havia.

Leia a última coluna de Ivan Lessa: “Orlando Porto”

Se via como cronista, um comentador de fatos pescados de jornais e noticiários, na tradição de Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto, Rubem Braga e Fernando Sabino.

“Não sou jornalista”, dizia, enfático, na cantina da BBC – onde confraternizava com os colegas de trabalho, nos três dias da semana em que vinha para Bush House, antiga sede do Serviço Mundial.

Mas falava com muito orgulho de seu – talvez – único trabalho com o “repórter” da BBC Brasil: de quando entrevistou, em Londres, o ícone do jazz Billy Eckstine.

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Ivan Lessa amava Eckstine. E amava Frank Sinatra, Dick Haymes, Frankie Laine, Sammy Davis Jr., Joe Mooney e um monte de crooners obscuros que conheceu nos anos 40 e 50, junto com a rapaziada que co-frequentava as Lojas Murray, no Rio, e que tramou a Bossa Nova – entre eles Joao Gilberto, que, em 2000, quando veio a Londres para um show no Barbican, ficou mais de uma hora no telefone com Ivan, trocado conversa fiada e cantando sambas antigos.

Maior que o amor pela música, só o amor pelo cinema. Ivan sabia tudo da Hollywood dos anos 40 e 50, e nutria um orgulho especial por ter conhecido atores e roteiristas americanos no Rio de Janeiro ou mesmo nos EUA, apresentados pelo seu pai, o escritor Orígenes Lessa, que trabalhou anos como uma espécie de lobista cultural fazendo um meio campo entre EUA e Brasil.

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Ivan detestava o cinema brasileiro, que considerava amador, mas gostava de falar do ator José Lewgoy, seu grande amigo, e não escondia o orgulho de estar listado no IMBD como “actor“ ligado a filmes brasileiros.

Nos anos 50, Ivan foi ator mirim em dois ou três filmes, entre eles “Maior Que o Ódio” – em que contracena com Agnaldo Rayol -, dirigido por Jose Carlos Burle, estrelado por Anselmo Duarte.

Nos quase 15 anos em que convivi com o Ivan, raramente vi ele tão feliz como quando ele soube que suas cenas em “Maior Que o Ódio” tinham sido colocadas no YouTube.

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Ao Vivo | 19:34

Em Londres com Ivan Lessa

Oscar Pilagallo, especial para o iG

Convivi cinco anos com Ivan Lessa, a partir de 1986. Trabalhamos no Serviço Brasileiro da BBC, na Bush House, no centro de Londres. Quando cheguei, Ivan estava lá havia quase vinte anos. Dizia que nunca voltaria ao Bananão, como chamava o Brasil, mas o país nunca o deixou.

Ivan Lessa morre aos 77 anos

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O jornalista e escritor Ivan Lessa

Vimo-nos poucas vezes desde que voltei, em 1991. Mas ele estava sempre por perto, na memória e na estante de long-plays. Naquele final dos anos 80, Ivan estava trocando sua coleção de vinil pelos modernos CDs, e eu fui o feliz depositário das bolachas que ele descartava aos poucos.

O disco nunca vinha sozinho. Havia quase sempre um bilhete, em que ele sugeria os trechos para prestar mais atenção, um solo, um fraseado, um verso. Foi assim que ouvi pela primeira vez Mel Tormé, Billy Eckstine e tantos outros. Ninguém conhecia mais a música popular americana do que ele.

Ivan não era dado a solenidades. Chegava à Redação no final da manhã para gravar seus programas de rádio, que mais tarde seriam transmitidos em ondas curtas. Num saquinho de plástico trazia as raridades e as deixava num escaninho em meu nome.

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Não perdia a chance de me gozar. Junto com um dos primeiros LPs, um bilhete bem ao seu estilo: “Ao amigo Oscar, com a admiração do Zé Antônio”. E o pior foi que, sem decifrar o garrancho, eu caí.

Ivan não perdoava. Certa vez caçoou um amigo – que se tornaria cronista famoso e polêmico – que lhe disse ter assobiado determinada harmonia. Pois o amigo então não sabia que se trata de uma impossibilidade física? Como é possível alguém assobiar, ao mesmo tempo, pelo menos três notas, que é o que se precisa para formar uma harmonia? Pelo menos o amigo aprendeu a diferença entre harmonia e melodia.

Trabalhar com o Ivan era sobretudo divertido. Fiz muitas transmissões ao vivo com ele. Nas duplas, ele era quase sempre o segundo apresentador, condição que lhe dava mais liberdade. O âncora, por assim dizer, tinha a responsabilidade de produzir a transmissão e de encerrá-la na hora exata, com poucos segundos de tolerância. Se passasse da hora, o programa era cortado abruptamente; se terminasse antes, entrava um sinal eletrônico para ocupar a frequência, o que gerava reprimendas das instâncias superiores. Pois não é que nos momentos finais da transmissão, quando eu estava com um olho no ponteiro de segundos e o outro no script, Ivan se punha na frente do relógio a fazer caretas!

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Sig, mascote criado por Jaguar e Ivan Lessa

Quando o conheci ele era assim, uma criança de quase 60 anos. Era também uma referência para os jornalistas da geração anterior. Afinal, era o cara que tinha feito o Pasquim – o grande ícone da resistência irreverente à ditadura militar –, a figura mais respeitada pelos humoristas mais sofisticados que hoje escrevem em jornais e se apresentam na TV.

Ao saber de sua morte, fui ouvir Eckstine . “Serenade in Blues” me deixou triste. O Ivan certamente teria pensado alguma brincadeira para me tirar dessa, teria sugerido mudar de faixa, quem sabe “Without a Song”? Mas, Ivan, o disco todo é tão triste. Ou talvez não seja o disco, porque hoje até uma marcha carnavalesca soaria, para mim, em tom menor. Acho que vou reler suas crônicas – é lá que você está, e na minha memória.

Veja a lista de colunas da BBC Brasil escritas por Ivan Lessa e publicadas no iG

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